Mértola - Tavira

As primeiras luzes a entrar no salão de festas, pelas pequenas janelas, a imensidão do espaço onde passámos a noite. Ficámos alguns minutos deitados, no conforto do saco-cama, a saborear o nossa última manhã de viagem.
Ficámos com o nervosismo pré-partida. Encafuamos tudo dentro do alforges e encaixámo-los na bicicleta mais uma vez. Só mais esta vez...


Dissemos adeus ao pessoal que estava de serviço no quartel e agradecemos. Eles contaram-nos que de vez em quando um peregrino passava por ali e pedia pernoita. O pessoal encarregue de tomar conta do Caminho Português, veio há coisa de três ou quatro anos, pedir-lhes para ajudar os peregrinos que ali passassem. Talvez um dia voltemos aqui de mochila.
O dia mal começara e o frio apertava durante as primeiras pedaladas. Não demorou muito até pararmos para tomar o pequeno-almoço, com o nascer do sol sobre a cidade de Mértola.

Duas hipóteses para os últimos quilómetros.
Seguirmos a estrada principal, que nos levaria até uma IP, que rapidamente nos poria em Castro Marim e Vila Real de Santo António, onde a N125 nos esperava com o seu habitual tráfego. São pelo menos noventa quilómetros de estrada recta, sem grandes declives e sem muito para ver, além dos camiões de segunda-feira a razarem-nos as orelhas.
A segunda alternativa, seria virar daqui a sete quilómetros nesta estrada, após Mértola, e enfrentar a Serra do Caldeirão de cabeça e peito erguido, pela estraditas secundárias, as longas e impossíveis subidas, os buracos e a pouca sinalização, na esperança de encontrar o caminho mais directo e curto até Tavira. E também o mais bonito.


Virámos à direita, e deixámos para trás o crescente tráfego. Deixámos para trás os dias de barulho, buzinadelas e razantes bamboleantes. Deixámos para trás a certeza, e encarámos de frente a incerteza que apenas uma estrada nova consegue proporcionar. A partir de hoje, vamos ter que reaprender tudo de novo.

A bicicleta tremelica mais, quando em estradas esburacadas e mal remendadas. Mas os sorrisos que ganhámos, valem mais do que uns braços dormentes. Foi sobe e desce, sobe e desce, sobe e desce. Todo o dia nisto.


Quase sem darmos por isso, atravessámos do Alentejo para o Algarve ao passar sobre a ponte de mais um rio, que por esta serra corre. Não vimos placas a sinalizar nada, mas o mapa indicava a mudança de região.
Quando chegámos a Martim Longo, procurámos o caminho que se embrenhava ainda mais para dentro da serra e em Vaqueiros, saímos dos selins para almoçar. Ainda não tínhamos parado por um momento que fosse. Como se sentíssemos que durante muito tempo não voltássemos a ter umas sessões de serra acima de malas carregadas e quiséssemos por isso estender a sensação.
A aldeia parecia deserta, embora fosse segunda-feira. Mas não nos aborrecemos e comemos o arroz de pato que a mãe Mónica nos trouxe ontem, ao solinho da paragem das camionetas.


As subidas silenciosas, por entre o mato da serra. A ave de rapina a caçar nas encostas. A aldeia de casas brancas que espreita por entre os vales. O desenho das estradas e caminhos a meandrar pelas colinas. O suor que escorre quando estamos ao sol e se torna um fio gelado pelas costas ao cruzarmos sombras. As paragens para tudo isto apreciar enquanto se bebe do amigo cantil... 


Quando demos por nós, o azul do céu encontrou o azul do oceano. Aproximava-se o fim.
Parámos no topo mais alto do dia e sentámo-nos a observar e a reflectir...


Sobre este estilo de vida que não esperávamos gostar tanto, e sentir, já, tanto a falta. Os 505 dias em cima do selim, que nos obrigaram a mudar de maneira de pensar, de modo a pedalar dia após dia, apesar das adversidades e dos momentos mais em baixo. Desde as pequenas coisas do dia a dia, à consciência do nosso lugar no mundo e o que andamos aqui a fazer.
Ainda ficámos ali sentados bastante tempo. Acho que queríamos que a viagem perdurasse mais um pouco.

Mas o sol não espera, e antes que ele se escondesse atrás dos montes, puxámos os descansos para trás, levantámos a perna, ajeitámos o casaco e a badana, pusemos um pé no pedal e deixámo-nos levar pela descida da Serra de Mu até Tavira.


Tocámos à campainha, enquanto desmontávamos o estaminé. O meu irmão assoma-se à varanda, como se o primeiro dia da viagem se tratasse.



...há um ano atrás: Gonfaron

2 comentários:

Anónimo disse...

É optimo ter-vos em casa mas ... vou ter saudades de entrar todos os dias, mais ou menos à mesma hora, no vosso blog e ler os vossos relatos. Um dia disse-vos: chegam a Sevilha e voltam para trás, ups.. enganei-me! Vocês são os MAIORES!

Mário Trindade disse...

E venha a próxima aventura.
Obrigado.